domingo, 17 de maio de 2015

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VIDAS EM RECONSTRUÇÃO

Estabilizados, haitianos buscam trazer suas famílias para o Brasil.
Abel voltava do trabalho e passava perto de uma casa em obras, em Porto Príncipe, no Haiti, quando sentiu a terra balançar e caiu. No momento em que se deu conta, estava presa em escombros. “Depois do terremoto, não tínhamos mais nada: escola, trabalho ou comida.”
“Eu não conseguia mais viver com o cheiro de tantos mortos”, diz Abel Marthine, 30, ao se lembrar do abalo de 2010. Sem saída, a comerciante acabou seguindo os passos do pai, que migrou para os EUA na década de 1990 deixando a família.
Cinco dias depois da tragédia, Abel partiu para a República Dominicana em busca de trabalho. Seus filhos foram separados: Love-Sendlie Richard, então com 9 anos, e Henrique Lincifort, 3, passaram a morar com familiares.
Seguindo a rota ilegal do fluxo migratório para o Brasil, Abel se aventurou, em 2011, pelo Panamá, por Lima e Puerto Maldonado, no Peru, até chegar à terra prometida.
No Brasil, estudou, conseguiu emprego como babá e passou a enviar US$ 200 mensais aos filhos. “Meu coração de mãe fica muito triste [quando penso nos meus filhos]. Só quero que eles tenham visto para eu ir buscá-los.”
Depois de uma migração majoritariamente masculina e jovem, o fluxo para o Brasil passa a ter uma cara familiar.
Isso ocorre quando os imigrantes já têm certa estabilidade financeira, conseguindo se manter e ajudar os parentes –inclusive custeando sua vinda– e passam a “buscar” cônjuges, irmãs e filhos.
A Folha conversou, em São Paulo, com imigrantes que compõem esse novo cenário e, no Haiti, encontrou seus familiares que vivem a expectativa do reencontro.
A busca pela família começou em janeiro de 2014, a partir de uma medida brasileira. Desde então, 3.181 vistos de reunião familiar foram emitidos na embaixada em Porto Príncipe, mais de 20% do total dos 15.370.
Segundo o demógrafo Duval Magalhães, a tendência é que essa demanda cresça. “O movimento só não é maior porque, para ter o direito de ‘chamar’ familiares, o imigrante precisa do RNE [Registro Nacional de Estrangeiros], e há 22 mil processos em análise no Ministério da Justiça.”
Atualmente, 80% dos haitianos que vivem no Brasil são economicamente ativos e mandam dinheiro às suas famílias. Com uma média de US$ 200 enviados, a estimativa é que US$ 7,5 milhões partam do país todo mês.
Porém, a crise econômica e a alta do dólar têm pesado no envio de remessas e na vinda para o Brasil. “A menor contratação da indústria de serviço não está afetando a chegada deles. Mas a expectativa é que passe a influenciar”, diz Letícia Mamed, doutoranda em sociologia.
Olávia Freitas
(Folha de S. Paulo – 26/04/2015)

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