quarta-feira, 12 de junho de 2013

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AFRICANOS VÍTIMAS DE RACISMO ‘SOCIAL’ E ‘BUROCRÁTICO’

Os africanos com formação superior têm dificuldades em encontrar bons empregos na sua área devido ao preconceito e aos estereótipos instalados na sociedade brasileira. Depois da questão racial, criam-se outras barreiras, aparentemente burocráticas, que não existem ou são relativizadas para outros grupos populacionais. Ao racismo social se acrescenta o racismo burocrático.
“A questão racial é o primeiro obstáculo para os africanos no Brasil”, disse Carmen Victor Silva, diretora administrativa do Instituto do Desenvolvimento da Diáspora Africana no Brasil (IDDAB).
Para Carmen Silva, depois da questão racial, “criam-se outras barreiras, aparentemente burocráticas, que não existem ou são relativizadas para outros grupos populacionais”.
O IDDAB, uma organização não-governamental criada em São Paulo há cinco anos, promove ações políticas e dá apoio à diáspora africana e aos imigrantes afrodescendentes, como os haitianos.
A ONG é presidida pelo moçambicano Alberto Canoana e conta com integrantes voluntários brasileiros e africanos.
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“Percebemos que existem `estrangeiros e estrangeiros´, disse a responsável, revelando que o poder económico também conta para a sua maior aceitação no país.
De acordo com Carmen Silva, “o imigrante europeu, por exemplo, é tido sempre como um trabalhador qualificado”.
“Já os africanos são vistos como uma coisa só, desqualificados, são tidos como traficantes, envolvidos com o crime”, sublinhou, acrescentando que, entretanto, há muitos europeus presos por tráfico de drogas.
O Brasil necessita, no momento, de muita mão de obra qualificada, sobretudo nas áreas das ciências exatas, como engenharia, e das ciências médicas.
Portugal foi o país que mais enviou trabalhadores (sobretudo qualificados) entre os estrangeiros que migraram para o Brasil no ano passado, tendo sido concedidos 848 vistos de trabalho a portugueses, segundo fontes oficiais.
Depois dos portugueses, destacaram-se os chineses, os americanos e os espanhóis.
O número de autorizações de trabalho concedidas a estrangeiros somou 73.022 em 2012, um crescimento de 3,5% em relação ao ano anterior.
De acordo com a diretora da ONG, os africanos são sempre mal recebidos nos serviços de imigração, diferentemente de outras populações.
Carmen Silva declarou que conhece muitos casos, como o de um jovem congolês, filho de um diplomata, que conseguiu o visto de residência no Brasil, mas preferiu imigrar para o Canadá por não conseguir trabalhar (licenciado em medicina na Rússia) no país.
Também relatou os casos de muitos haitianos que têm vistos humanitários no Brasil, mas “não conseguem trabalhar nas suas profissões”, estando empregados sobretudo na construção civil.
A responsável da ONG disse que a nossa história como antigo país escravista, faz associar os negros aos trabalhos menos qualificados, permanecendo um estereótipo social que leva ao preconceito.
Nova política de branqueamento
De acordo com Carmen Silva, existe uma tentativa de “branqueamento” da população brasileira.
A burocracia e a falta de um plano claro e transparente de imigração são outros problemas apontados por Carmen Silva.
“O processo de validação dos diplomas estrangeiros é absurdo”, acrescentou, questionando ainda as provas exigidas aos candidatos e toda a burocracia e tempo que as instituições levam para validar um diploma no país.
Carmen Silva descreveu também uma aparatosa operação da Polícia Federal (PF) no centro de São Paulo, no ano passado, em que foram presos cerca de 600 africanos.
Uma sul-africana branca foi abordada pela polícia, mas não foi levada para as instalações da polícia. A maioria das pessoas foi libertada posteriormente.
O IDDAB pediu explicações sobre a operação da PF e as instituições governamentais responderam que o procedimento era “normal”, dentro da legalidade.
“Eu tenho vergonha do comportamento das autoridades do meu país, em como trata os imigrantes e pela falta de uma política específica para o atendimento destas populações”, afirmou Carmen Silva, dizendo que o Brasil não é um país “acolhedor”.
(Lusa – 11/06/2013)

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