MAPEANDO OS FLUXOS MIGRATÓRIOS DE SÃO PAULO
Entre
1885 e 1927 entraram em terras paulistas por volta de 2,5 milhões de
estrangeiros atraídos pela expansão da cafeicultura e crescente
urbanização.
Ao longo de mais de 200 anos, o tecido
social paulista foi moldado de maneira singular pela chegada de mais de 5
milhões de migrantes de várias nacionalidades e regiões do Brasil. As
idas e vindas dessas comunidades provocaram profundas alterações na
dinâmica social e serviram como potentes motores econômicos da indústria
e da agricultura do estado. A capital paulista foi espaço privilegiado
deste movimento. Seus bairros mais tradicionais são testemunhos vivos do
desenvolvimento urbano pautado por influxos italianos, japoneses,
portugueses e, mais recentemente, bolivianos, coreanos, senegaleses e
haitianos. A qualidade cosmopolita e empreendedora de São Paulo tem como
raiz a herança imigrante. Com o objetivo de mapear a dinâmica
migratória de 1794 a 2010, revelando as mudanças e particularidades das
trajetórias migrantes nos vários períodos econômicos do estado paulista,
o Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas
(Nepo-Unicamp) lançou, em dezembro, o Atlas temático do Observatório das
Migrações em São Paulo.
A iniciativa é coordenada pela cientista social da Unicamp Rosana
Baeninger e teve apoio da FAPESP e do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O Atlas é resultado de
um projeto temático iniciado em 2009 e que concluiu sua primeira fase em
2013. O estudo das migrações em São Paulo envolveu 16 pesquisadores do
Nepo, do Instituto de Economia, do Núcleo de Estudos de Políticas
Públicas e da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp e das
universidades Estadual Paulista (Unesp), Federal de São Carlos (UFSCar),
Federal de São Paulo (Unifesp) e da Faculdade Anhembi-Morumbi, além de
40 estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e
pós-doutorado. O trabalho incluiu mais de 500 entrevistas com famílias
de imigrantes e a coleta de dados censitários, registros do porto de
Santos, estudos demográficos e certidões de casamento.
O próximo passo da pesquisa é avançar no estudo das migrações
contemporâneas, investigando o impacto social, econômico e urbano das
novas levas imigrantes em São Paulo, como os coreanos instalados da
região industrial de Piracicaba e no setor de semijoias em Limeira, os
haitianos na construção civil de Campinas e Franca, e os bolivianos nas
confecções de São Paulo, Americana e Indaiatuba. “O Observatório das
Migrações notou que, depois de 200 anos de imigração, São Paulo continua
sendo a porta de entrada das imigrações internacionais no Brasil”, diz
Rosana.
Reflexos na economia
O objetivo do Atlas é recuperar as distintas fases das migrações do
estado desde 1794 até os dias atuais e articular as levas imigrantes e
seus reflexos nas diversas fases da economia paulista. O primeiro
período histórico contemplado no Atlas, de 1794 a 1888, envolve as
migrações internas de cerca de 500 mil homens livres e escravos, bem
como os primeiros imigrantes europeus, trazidos para trabalhar nas
lavouras de café. A falta de censos demográficos desse período levou os
pesquisadores a investigar os registros de casamentos e dados paroquiais
de Campinas e São Carlos, por meio dos quais perceberam que parte
significativa dos escravos dessas regiões vinha do quadrilátero do
açúcar e do sul de Minas Gerais, assim como das províncias do Rio de
Janeiro e da Bahia. O levantamento revelou a intensa mobilidade espacial
das migrações internas no estado, um aspecto até então pouco estudado
da história de São Paulo no século XIX. “Procuramos cobrir uma lacuna na
literatura e mostrar como a migração interna e externa são fenômenos
muito interligados que continuam a impactar a formação social paulista”,
explica Rosana.
Durante 1885 e 1927 entraram em terras
paulistas por volta de 2,5 milhões de imigrantes estrangeiros atraídos
pela expansão da cafeicultura e crescente urbanização. A primeira
expansão da cafeicultura foi concentrada inicialmente nas regiões de
Campinas até Araraquara. No início do século XX, o plantio do café se
expande rumo à ocupação do território para o oeste do estado.
Trabalhadores recém-desembarcados em Santos rapidamente ocupam as novas
fronteiras agrícolas. Esse foi o grande período das imigrações europeias
incentivadas pelo governo brasileiro. A maior comunidade a chegar a São
Paulo entre os anos de 1872 e 1929 foi a italiana, seguida pela
portuguesa, espanhola, alemã e japonesa.
Padrões de ocupação
Cada nacionalidade assumiu um padrão de ocupação diferente. Enquanto a
de portugueses em São Paulo acompanhou a expansão da fronteira agrícola
para oeste, os japoneses tiveram uma dispersão maior pelo estado,
reunindo suas famílias nas cidades próximas ao porto de Iguape, no Vale
do Ribeira, até a região entre Araçatuba e Presidente Prudente. O rico
conjunto de mapas que compõe o Atlas detalha a dinâmica de imigração de
todas as nacionalidades de imigrantes entre os anos de 1920 e 2010.
Em 1927 foi encerrado o subsídio à imigração internacional e a crise
econômica global alterou a dinâmica imigratória. A elite industrial
paulistana cresceu e o empresariado de origem imigrante estabeleceu
raízes em Ribeirão Preto, Franca, São Carlos e Bauru, criando ricos
polos industriais nas regiões. Os anos 1970 testemunharam a crescente
pulverização dos fluxos migratórios rumo ao interior, padrão que
continua até hoje por conta da melhor qualidade e menor custo de vida.
Em razão da modernização agrícola e difusão da indústria, orientada pela
instalação de eixos rodoviários do estado, o interior vem ganhando
progressivamente uma relevância populacional, política e econômica. “As
cidades interioranas têm forças endógenas e seu desenvolvimento se deve
muito aos fluxos migratórios”, diz Rosana. A pesquisa mostra, por
exemplo, como a presença de libaneses e japoneses estimulou o
florescimento de zonas de comércio, ao passo que os italianos,
portugueses e alemães cultivaram a agricultura e impulsionaram a
indústria de São Paulo. Entre 1872 e 1950 estima-se que mais de 1 milhão
de italianos entraram no estado, seguidos por 1 milhão de portugueses,
600 mil espanhóis, 200 mil japoneses, 200 mil alemães e 100 mil
libaneses.
Os conflitos políticos na Europa em meados do século XX provocaram
grandes movimentos de dispersão populacional. Nesse período, São Paulo
testemunhou a chegada de novas nacionalidades. “A partir de 1930, os
especialistas tinham um olhar mais centrado na imigração interna de
nordestinos que vieram trabalhar em São Paulo, mas nossa pesquisa mostra
como foi importante a chegada de uma nova leva de imigrantes de mão de
obra qualificada, especialmente depois da guerra, como os gregos,
poloneses, russos e ucranianos que chegaram ao estado impulsionados por
conjunturas políticas muito específicas”, explica a pesquisadora.
Diferentemente dos períodos anteriores, a imigração do pós-Segunda
Guerra Mundial é quase inteiramente urbana e serviu para acelerar o
crescimento das cidades paulistas em um ritmo inédito. Ao longo da
década de 1950 houve um elevado crescimento populacional na Região
Metropolitana da capital, que passou de 2.653.860 habitantes em 1950
para 4.739.406 em 1960, onde as migrações rurais e urbanas, em especial
de nordestinos, permitiram que a metrópole tivesse mão de obra
disponível para fazer deslanchar sua próxima etapa econômica.
A chegada de imigrantes ajudou no desenvolvimento econômico e
expansão demográfica, mas encontrou um crescimento urbano desorganizado
gerando, consequentemente, maior demanda por serviços públicos. Um dos
objetivos do Observatório das Migrações é aprofundar o conhecimento
sobre as imigrações e, assim, auxiliar na implementação de políticas
públicas mais eficientes. Diferentemente dos fluxos anteriores, a
imigração contemporânea é pautada por maior mobilidade. Os imigrantes
agora viajam com maior velocidade e nem sempre vêm com a intenção de se
estabelecer definitivamente, como entre 1850 e 1950.
“A rotatividade migratória depende de onde o capital internacional
tem excedentes. Hoje, com um Nordeste mais dinamizado, o fluxo de
trabalhadores desta região tende a diminuir, por exemplo. Ao entender
essa dinâmica do fluxo de capital global é possível perceber a demanda
por mão de obra nas cidades paulistas e as necessidades mais pontuais
por políticas de atendimento à saúde e educação”, diz Rosana. Para ela,
existe hoje um contingente populacional de imigrantes “invisíveis” em
São Paulo, como bolivianos, peruanos, paraguaios, coreanos, chineses e
senegaleses, angolanos que chegaram para trabalhar na indústria têxtil e
no comércio. Estima-se que esses contingentes cheguem a mais de 500 mil
pessoas vivendo na cidade. “Temos uma diversidade maior do que em
outras épocas. Isso vai demandar uma estrutura diferenciada de políticas
públicas que reflitam sobre a segunda geração desses fluxos de
imigração, assim como sobre a interiorização da imigração internacional e
as sucessivas idas e vindas das comunidades imigrantes.”
O Observatório das Migrações também concluiu em 2013 a publicação dos
últimos volumes de uma série de 12 estudos sobre as dinâmicas
migratórias de São Paulo. A coleção Por Dentro do Estado de São Paulo
mapeia o impacto dos fluxos migratórios em várias regiões do estado e
está disponível .
Carolina Rossetti de Toledo
(
Revista Fapesp - Janeiro de 2014)